A abordagem ao crack

A ABRAFAM – Instituto de Prevenção à Dependência Química e Apoio às Famílias, entidade que há 22 anos se dedica à essa causa, é favorável à internação involuntária solicitada pela família, ou a compulsória, sob tutela do governo, como medidas prioritárias de proteção à vida e recuperação dos dependentes de crack, sobretudo, dos que frequentam as cracolândias.

Está provado que a doença da dependência de crack exige abordagem específica e incisiva. Modelos de tratamento espontâneos adotados para álcool e demais drogas apresentam resultados pífios na maioria dos casos de crack.

Essa droga é diferente de tudo. O crack não admite padrões de uso experimental, recreacional, circunstancial ou regular. Seu usuário é dependente químico desde as primeiras tragadas. Não há outro padrão de uso que não seja intenso, compulsivo e nocivo.

Daí a razão de o dependente de crack ser conhecido como craqueiro, pedreiro ou nóia – gíria de paranoia que em psiquiatria significa o estado crônico de delírios e da esquizofrenia paranoide, empregadas, sobretudo, para diferenciar o dependente de crack dos demais usuários de drogas.

O II LENAD – Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, INPAD/CNPq coloca o Brasil na primeira posição no mundo em consumo de crack, com 1 milhão de usuários, enquanto alguns outros estudiosos calculam o dobro.

Por trás de um dependente de crack, há 6 ou 7 pessoas, entre familiares e amigos, sofrendo ininterruptamente. São reféns mantidos sob tortura psicológica, manipulados, atormentados e aterrorizados quando o dependente é presente ou preocupados e amargurados quando está ausente.

Se tomada por base a estimativa do II LENAD, o número total de pessoas diretamente atingidas pela epidemia do crack se aproxima de 7 milhões.

Por conta dos graves transtornos de comportamento, o dependente de crack causa sofrimento a todos a seu redor, mas, é a vida dos familiares e amigos próximos que ele transforma em verdadeiro inferno. Muitos acabam adoecendo também, tornando-se codependentes.

Só fazendo ou tendo feito parte dessa população diretamente atingida pela epidemia do crack é possível imaginar o flagelo que isso significa. São falsas as declarações que o dependente de crack consegue, voluntariamente, cumprir um programa de tratamento ou substituir a pedra por uma droga menos nociva.

A abordagem ao crack tem que ser exclusiva e radical. O craqueiro é um doente grave, de conduta psicótica. Ele passa a maior parte do tempo fumando pedras, consumindo
por horas a fio, toda a quantidade que conseguir comprar. Há casos em que o indivíduo chega a consumir mais de 30 pedras em um só dia.

Ao esgotar o estoque, entra em crise de persecução, passando a se esconder, a espreitar através de frestas e fechaduras e a engatinhar, catando migalhas de pedra pelo chão para continuar pipando, alucinadamente.

Só para, por algum tempo, quando está extenuado, sem pedra, nem dinheiro. Em seguida à essa parada obrigatória, a fissura volta a bater e o processo se repete, sistematicamente. O desejo de fumar crack é incontrolável. O indivíduo não consegue pensar em nada que não seja a devastadora pedra.

Fissurado, ele precisa conseguir dinheiro para buscar o bagulho e voltar a pipar. Não dá para esperar. Tem que ser rápido. A quem recorrer nessa hora? A quem manipular? Ao pai? À mãe? Avó? Irmão? Amigo? Quem sabe, vendendo um botijão de gás? Ou o micro-ondas? O tênis? CD? Uma camiseta? Fazendo pedágio no semáforo? Roubar? Assaltar? Saidinha de banco? Servir de avião ao traficante?

O crack anula o discernimento do indivíduo. Na fissura, o craqueiro faz qualquer coisa para conseguir a droga. A alternativa que sua mente doente julgar a mais oportuna é a escolhida e praticada, prontamente. A pedra justifica o meio.

Enquanto as outras drogas conduzem uma parcela de usuários ao fundo do poço, o crack arremessa todos os seus consumidores ao fundo da fossa.

É inaceitável continuar passando um pano no problema do crack. A validade da internação compulsória é incontestável, sobretudo, para a maioria dos casos que se chafurdam na cracolândia.

Todo mundo já sabe que essa droga transforma o indivíduo em um ser irracional e indomável, sem discernimento para aderir a tratamentos e cumprir programas terapêuticos, espontaneamente; sabe que 3 dias de internação em um CAPS-AD ou no hospital nada significam; que a idade mental do usuário de crack não acompanha a cronológica; que o seu desenvolvimento intelectual estaciona na idade em que foi iniciado nas drogas; e que o doente perde completamente a capacidade de gerenciar a sua vida.

Concluindo, a ABRAFAM defende a internação involuntária e a compulsória do dependente de crack que, notadamente, perdeu essa capacidade,por entender que é dever de todos zelar pela sua dignidade, do mesmo modo que a Lei 8069/90 estabelece às crianças e adolescentes.

A nosso ver, é Obrigação Humana de todos tentar salvar a vida de quem é incapaz de dirigi-la, colocando-o a salvo dos permanentes riscos que corre, principalmente, nas cracolândias.

Carlos Roberto Rodrigues